No âmbito da sua visita de trabalho a Moçambique e das celebrações do 26.º aniversário da Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP), a Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de Portugal, Ana Isabel Xavier, concedeu uma entrevista à Rádio Xirico, conduzida pela aluna Jasmine Eunice Ascenso.
Nas linhas que se seguem, a diplomata partilha a sua visão sobre a promoção da língua portuguesa, a cooperação bilateral entre Portugal e Moçambique e o papel da juventude na construção do futuro.
Rádio Xirico (RX): O que representa para si visitar a Escola Portuguesa de Moçambique?
Ana Isabel Xavier (AIX): É a segunda vez que visito Moçambique, na qualidade de Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de Portugal, e faço sempre questão de passar pela Escola Portuguesa, porque a Escola Portuguesa é a verdadeira embaixadora de Portugal.
Nós temos aqui um exemplo muito bem-sucedido da aprendizagem da língua portuguesa, mas, mais do que isso, da integração do currículo escolar em todos os níveis de ensino e em todos os ciclos, incluindo também a formação profissional, potenciando áreas muito interessantes como as artes, as ciências, a música e o desporto. Por isso, vir à Escola Portuguesa é, antes de mais, sentirmos Portugal em Maputo e sentir que as crianças e os jovens que aqui estão, de várias nacionalidades, se sentem também todos parte de Portugal.
RX: Na sua opinião, qual é a importância das Escolas Portuguesas no Estrangeiro para a promoção da língua e da cultura portuguesa?
AIX: É exatamente isso. Nós temos uma rede de ensino da língua portuguesa que se baseia em vários pilares. A Escola Portuguesa, ou melhor, as Escolas Portuguesas no Estrangeiro, são um desses pilares. Mas temos outros: professores nas universidades, através dos leiturados, professores espalhados por todo o mundo, em centros de línguas ou noutras escolas.
Na realidade, o português é a língua mais falada do hemisfério sul, e isso não é por acaso. Também não é por acaso que gostaríamos que, muito brevemente, a língua portuguesa fosse uma das línguas oficiais das Nações Unidas. O português é, portanto, um ativo estratégico que Portugal tem na sua relação com o mundo e na projeção da nossa política externa.
RX: A cooperação entre Portugal e Moçambique tem sido muito relevante. De que forma a educação faz parte desta cooperação?
AIX: A educação esteve sempre presente na cooperação bilateral entre os dois países. No ano passado celebrámos os 50 anos da independência de Moçambique e, simbolicamente, os dois países viraram essa página e estão agora focados no futuro.
Ora, sempre que se fala do futuro de um país, temos necessariamente de falar de educação. Por isso, o Governo de Portugal vai continuar a apoiar este projeto da Escola Portuguesa como uma das principais bandeiras da educação e da cooperação portuguesa e, para além disso, vamos reforçar outros canais de formação profissional e, no fundo, a educação ao longo da vida.

RX: Que mensagem gostaria de deixar aos alunos, tanto portugueses como moçambicanos, desta escola?
AIX: Gostaria, sobretudo, de agradecer o facto de, ano após ano, a Escola Portuguesa ser tão procurada por alunos de várias nacionalidades. É verdade que são maioritariamente portugueses e moçambicanos, mas há aqui outras nacionalidades, o que prova que a Escola Portuguesa continua a ser uma referência do ensino em Maputo e em Moçambique.
Por isso, agradecer aos alunos que, ano após ano, constroem esta extraordinária reputação da escola. As famílias passam a palavra, sentem-se felizes aqui, encontram atividades que não existem noutras escolas internacionais e têm o apoio do currículo português, o que é extraordinário para muitos de vós que um dia vão regressar a Portugal ou que desejem estudar ou trabalhar lá. Se a Escola Portuguesa é hoje uma bandeira da cooperação e de Portugal em Maputo, isso deve-se, antes de mais, às alunas e aos alunos.
RX: Na sua função enquanto Secretária de Estado, quais são hoje os maiores desafios da cooperação internacional?
AIX: O maior desafio da cooperação internacional hoje é, curiosamente, manter essa cooperação. Parece um contrassenso, mas basta acompanhar as notícias.
Vivemos num mundo que parece um pouco de pernas para o ar, onde muitos países estão a investir menos na cooperação e na ajuda pública ao desenvolvimento. Portugal tem exatamente a narrativa oposta: precisamos de reforçar a ajuda pública ao desenvolvimento e os canais de cooperação.
Fazemo-lo a nível bilateral, país a país, a nível regional, com a CPLP, e a nível multilateral, na União Europeia, na NATO e nas Nações Unidas. Quando olhamos para a cooperação com Moçambique, todas estas esferas estão muito ativas. Num mundo que questiona o multilateralismo, Portugal aposta em construir pontes e reafirma que o investimento na cooperação vai continuar.
RX: A juventude tem um papel importante no futuro dos países. Que conselho deixa aos jovens que querem contribuir para um mundo mais solidário e cooperante?
AIX: É sempre difícil dar conselhos, porque muitas vezes são os jovens que nos ensinam e nos dão conselhos a nós. Aprendemos convosco todos os dias.
Mas diria que é fundamental perceberem que vocês não são apenas o futuro: vocês já são o presente. Podem, todos os dias, ser cidadãos conscientes, ativos e responsáveis. Sejam proativos, dinâmicos, foquem-se nos estudos, tenham gosto em aprender, sejam curiosos e críticos.
Ser crítico significa questionar a informação que recebem, sobretudo nas redes sociais, onde hoje se fala muito de desinformação. Entrem no detalhe, procurem os factos, recusem o populismo e o sensacionalismo. Sejam rigorosos, responsáveis e exigentes convosco próprios e com as vossas lideranças.
RX: Há algum projeto ou iniciativa futura entre Portugal e Moçambique que possa destacar?
AIX: Nós trabalhamos todos os dias com Moçambique. Coincidindo com a minha visita, estamos particularmente focados no apoio às populações afetadas pelas recentes calamidades naturais nas províncias de Maputo e Gaza.
Estamos em estreita coordenação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros moçambicano, com uma mensagem muito clara: Portugal está ao lado dos moçambicanos. Trata-se de uma ação humanitária e de emergência, que é o projeto mais imediato que posso destacar.
Mas existem sempre muitos projetos em curso e planeados, porque estamos focados nos próximos 50 anos, no futuro de Moçambique e dos moçambicanos.
