Alunos questionam desigualdade e limites da democracia na EPM-CELP

A liberdade não é consensual, nem pacífica, e está longe de ser um dado adquirido. Foi essa a principal conclusão de uma conversa intensa entre o embaixador de Portugal em Moçambique, Jorge Monteiro, o historiador António Sopa e alunos da Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP), no âmbito dos 52 anos do 25 de Abril.

O encontro mediado pelo professor Rodrigo Borges na Biblioteca Escola José Craveirinha, desenvolvido no âmbito da disciplina de História de Moçambique, teve como mote a “liberdade ontem e hoje”, transformou-se, na última sexta-feira, 24 de abril, num espaço de revisitação da História e de histórias, mas também de confronto de ideias, onde os estudantes exploraram temas como desigualdade social, acesso à educação e os limites reais da democracia.

A primeira intervenção coube ao embaixador, que enquadrou o 25 de Abril como um momento de rutura profunda. “Foi uma fratura exposta. Rompeu com um regime ditatorial e abriu a porta à autodeterminação. Teve um impacto internacional muito grande”, afirmou, acrescentando que essa rutura “mostrou que era possível derrubar ditaduras pacificamente e deu início à terceira vaga das democracias”.

Ao trazer o debate para o presente, o diplomata alertou para novas ameaças à liberdade:
“Nunca houve tanto acesso à informação. Mas será mais segura? Eu diria que não. Hoje vivemos um dos maiores desafios das sociedades democráticas: a desinformação e a manipulação”. E lançou uma questão: “Podemos falar verdadeiramente de liberdade quando nem todos têm acesso à educação, à saúde ou aos serviços essenciais?”

A resposta veio dos alunos. “Não existe liberdade quando há pessoas que não têm acesso à educação. Sem conhecimento, não há capacidade de escolher”, afirmou uma estudante. Outra reforçou, em jeito de pergunta, “como é que alguém que não sabe que tem alternativas pode ser livre?”

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O historiador António Sopa contrapôs essa leitura com um argumento histórico. Para ele “a luta pela liberdade foi sempre a luta dos desfavorecidos. Se alguém está à espera de ter tudo para começar a lutar, vai morrer sem ter feito nada. É difícil? É. Mas não vejo outro caminho. A liberdade conquista-se lutando”.

Sopa recuou ainda à história recente de Moçambique para contextualizar os limites da liberdade. Segundo contou, “Moçambique nasce independente por via militar. Isso deu um peso enorme ao controlo político e à censura. Só em 1990 é que a liberdade de expressão foi garantida constitucionalmente”.

Os temas da desigualdade e participação tornaram-se os eixos centrais da conversa. Uma aluna exemplificou que, em tempos eleitorais, “há pessoas que recebem uma t-shirt e acham que aquilo é salvação. Não têm outra escolha porque não têm informação”. Porque, “como é que alguém que não sabe se vai comer hoje pode lutar por liberdade?”

O embaixador reconheceu a complexidade dessas questões, mas recentrou o debate na educação. “O verdadeiro elevador da democracia é a educação. Não podemos falar de liberdade de escolha sem as ferramentas básicas”, disse, acrescentando que “foi o 25 de Abril que trouxe a educação universal a Portugal. Antes disso, era um privilégio de poucos”.

A discussão avançou ainda para os limites da liberdade e quem os deve definir. Para o diplomata português, em última instância, “devem ser os cidadãos a defini-los. A democracia constrói-se no dia-a-dia”.

Fora do campo estritamente político, António Sopa apontou outras formas de exercício democrático. Segundo ele, “há jovens nos bairros a criar grupos de teatro e dança. Isso também é democracia. É participação, é construção coletiva”.

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Num dos momentos finais, o debate abriu-se para o futuro das relações entre Portugal e os países africanos de língua portuguesa. Aqui, o embaixador procurou recentrar a narrativa num tom mais construtivo, afirmando que “a nossa relação, com todas as dificuldades, é um caso exemplar. Não é possível entender Portugal sem Moçambique, nem Moçambique sem Portugal”.

A sessão terminou com um momento simbólico, evocando a liberdade através da poesia e da música, interpretadas por alunos e pela professora Leandra Reis.