Dez anos de Mãos na Ciência: quando aprender se torna experiência

Hoje, dia 29 de janeiro, logo pela manhã, vários espaços da Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) apresentavam uma dinâmica fora do comum.... Havia vozes que se atropelavam, passos apressados e olhares curiosos, colados a experiências que brilhavam, giravam e reagiam ao toque. Em diferentes pontos do recinto, a ciência ganhou forma, cor e movimento, enquanto os alunos circulavam como exploradores num território que apelava à descoberta.

É neste ambiente de descoberta que a EPM-CELP assinala os seus 26 anos de existência, com uma programação que transforma a escola num espaço dinâmico de experimentação, onde a palavra, a imaginação, a ciência e as artes se cruzam diariamente.

A celebração ganha significado redobrado com a marca dos 10 anos do Projeto Mãos na Ciência, implementado, pela primeira vez, no ano letivo 2015/2016 e hoje assumido como uma das principais ferramentas pedagógicas da instituição, na promoção da literacia científica, do pensamento crítico e da aprendizagem ativa.

As comemorações decorrem de 26 a 30 de janeiro, envolvendo alunos de todos os ciclos de ensino, professores, funcionários e encarregados de educação, numa iniciativa que convida a aprender fazendo e a celebrar aprendendo.

Ciência que se vive, se toca e se experimenta

Ao longo desta semana, a escola transforma-se num verdadeiro laboratório vivo, com exposições, sessões interativas, experiências sensoriais, cinema científico, robótica, atividades ambientais e artísticas, distribuídas por diferentes espaços do recinto escolar.

Entre as iniciativas em destaque estão a exposição “TOP10 dos Brinquedos Científicos”, o “Painel da Ciência”, o “Quiz Científico Ambiental”, sessões no Planetário, experiências de Cinema 360º, atividades de robótica, exposições de minerais e macroinvertebrados, bem como ações ligadas à proteção dos oceanos, no âmbito do projeto Escola Azul.

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A dimensão artística também marca presença, com exposições na Galeria Alquimia das Artes, projeções de curtas-metragens, atividades visuais para os mais novos e experiências que cruzam ciência e criatividade. “Os trabalhos apresentados nesta exposição resultam de um exercício desenvolvido na disciplina de Desenho, com os alunos do 12.º A3, centrado na exploração do perfume enquanto objeto sensorial, cultural e visual. Partindo da escolha individual de uma fragrância, cada aluno realizou uma pesquisa aprofundada sobre o design e o significado do frasco, bem como sobre a pirâmide olfativa, analisando as notas de topo, de coração e de fundo que constroem a identidade de cada perfume”, lê-se na nota de apresentação. O estudo incluiu ainda a investigação de marcas de referência da perfumaria contemporânea, como Hugo Boss, Chanel, Givenchy, Dolce & Gabbana e Jean Paul Gaultier, permitindo compreender o perfume como um objeto onde convergem linguagem visual, narrativa simbólica e estratégia de marca.

Uma sala multissensorial ao serviço da aprendizagem

Um dos espaços que tem despertado maior curiosidade é a Sala Multissensorial, inaugurada no âmbito das comemorações, onde os alunos são convidados a explorar os cinco sentidos – visão, tato, audição, paladar e olfato – através de experiências orientadas.

De acordo com o professor de Físico-Química, Pedro Santos, o objetivo é estimular não apenas o conhecimento científico, mas também a consciência emocional e a perceção crítica. “Nesta semana estamos a trabalhar os sentidos. A visão, através da radiação ultravioleta e das fitas fluorescentes, e o tato, com caixas que contêm diferentes materiais. Os alunos percebem que muitas vezes a interpretação pode ser enganadora, porque fazemos juízos sem termos dados concretos”, explicou. Segundo o docente, a atividade vai além da ciência experimental, promovendo também valores humanos. “Isto ajuda os alunos a perceberem que, tal como na vida, é preciso calma, ponderação, ouvir o outro e interpretar bem as mensagens antes de tirar conclusões”.

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O espaço integra ainda práticas de yoga educativo, utilizadas como ferramenta de concentração, equilíbrio emocional e bem-estar. Aqui, explica o professor, “trabalhamos posições associadas aos chakras, à respiração e ao foco. Os alunos ficam mais calmos, mais tranquilos e mais concentrados. É uma aprendizagem que envolve corpo, mente e emoção”, acrescentou.

Um museu de ciência dentro da escola

Outro ponto central das celebrações é a Sala do Projeto Mãos na Ciência, um espaço que tem vindo a ser desenvolvido nos últimos anos e que hoje funciona como um verdadeiro museu científico escolar. Nuno Ferreira, professor de Ciências Físico-Químicas, explica que o espaço nasceu da necessidade de tornar o ensino mais apelativo.

“Era uma sala que usávamos apenas para passar vídeos. Decidimos transformá-la num espaço diferente, quase como um pequeno cinema, e comecei a construir módulos didáticos de ciência para ficarem aqui na escola”, esclarece. Atualmente, a sala dispõe de vários módulos interativos, utilizados por turmas de diferentes níveis. E a ideia é simples: “termos o nosso próprio museu, com experiências montadas, para que possamos tirar os alunos das salas tradicionais e fazer aulas mais dinâmicas, mais divertidas e mais apelativas”.

Ainda de acordo com o docente, no âmbito da celebração dos 10 anos do projeto, decorrem cerca de 20 atividades diferentes, incluindo sessões no planetário, observação do céu de Maputo, exposições científicas, filmes educativos e atividades interdisciplinares. “Recebemos vídeos do Planetário do Porto, que é nosso parceiro, temos exposições de brinquedos científicos construídos pelos alunos e atividades ligadas à luz e à cor”, explicou. Para o professor Nuno Ferreira, o grande objetivo do projeto é democratizar o acesso à ciência.

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A ciência, disse, tem de ser para toda a gente e não apenas para alguns. “Muitas vezes a informação não chega a todos, por isso estas comemorações servem também para divulgar, mostrar que o projeto existe e que está disponível”. Por isso, “convidámos também os encarregados de educação a virem conhecer o projeto. Sempre que houver necessidade, estamos disponíveis para apoiar colegas de outros níveis e trabalhar temas de forma mais lúdica”, concluiu.