Do medo à coragem: Hélder Tsemba transforma pesadelos de infância em livro infantojuvenil

No âmbito da Semana da Leitura, que decorreu entre os dias 23 e 27 de março, a Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) acolheu, no dia 26 de março, no Auditório Carlos Paredes, o lançamento do livro infantojuvenil “O fantasma que tinha medo do escuro”, da autoria de Hélder Tsemba, com ilustrações de Sarah Bennert.

A apresentação da obra, dirigida aos alunos do 5.º ano, esteve a cargo do escritor Pedro Pereira Lopes, enquanto a dinamização do encontro foi conduzida pela psicóloga escolar Janaína Tomás, que orientou uma conversa com os alunos centrada na problemática do medo.

Durante a sessão, o autor partilhou o percurso que deu origem à obra, recorrendo a memórias da sua infância e à experiência pessoal com o medo. “O fantasma, o meu fantasma, que vivia na gaveta, pôde sair graças aos cuidados da senhora Teresa Noronha [editora do livro]. O fantasma, finalmente, saiu da gaveta empoeirado, distratado e tinha tanta fome”, afirmou, sublinhando o processo simbólico de dar forma a emoções antigas.

No seu testemunho, Hélder Tsemba descreveu uma infância marcada pelo medo de dormir sozinho e por pesadelos recorrentes. Recordou que esperava pelos irmãos para adormecer, evitando enfrentar a noite isoladamente. “Eu tinha medo de dormir sozinho porque sofria de pesadelos”, disse, evocando a figura de uma “velhota” que surgia insistentemente nos seus sonhos e o perseguia ao longo da noite.

O autor relatou ainda a intensidade dessas experiências oníricas, marcadas por fugas constantes e cenários de queda em abismos escuros, que, apesar de por vezes se apresentarem com imagens aparentemente belas – como uma noite estrelada –, assumiam um carácter ameaçador. “Corria tanto, como se estivesse sempre a fugir para não ser alcançado”, referiu.

Segundo explicou, a mudança ocorreu quando decidiu enfrentar esse medo de forma direta. Numa das noites, optou por não esperar pelos irmãos e encarar a figura que o aterrorizava. “Disse: não vou mais fugir”, contou. Nesse confronto, descreveu o momento em que a figura se aproximou e, ao invés de recuar, manteve-se firme até que a presença desapareceu. “Abriu os braços, fui para agarrar… e desapareceu”, relatou.

A partir desse episódio, os pesadelos cessaram. “A velhota era a representação do medo. Eu era a coragem. E passei por isso. Venci a velhota ou o fantasma”, concluiu.

Na ocasião, Luísa Antunes, presidente da Comissão Administrativa Provisória da EPM-CELP, destacou a importância da obra enquanto ferramenta de reflexão para os mais novos. “Esperamos que todos […] descubram porque é que ele tinha, então, tanto medo do escuro, e como ele conseguiu, ou não, vencer esse medo”, referiu.

Após a apresentação, seguiu-se uma sessão orientada pela psicóloga Janaína Melo, centrada na reflexão sobre o medo, a sua interferência no quotidiano e formas de o compreender e enfrentar.

“O fantasma que tinha medo do escuro” conta a história de Teo, um menino que faz amizade com um fantasminha que, apesar das diferenças, partilha o mesmo sentimento: o medo. Ao longo da narrativa, ambos aprendem a lidar com esse sentimento, numa abordagem que cruza amizade, imaginação e superação.