A Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) ofereceu, na manhã de hoje, kits de material escolar à Fundação Alberto Joaquim Chipande (AJC), destinados à Escola Primária de Ngalane, no distrito de Metuge, província de Cabo Delgado, garantindo condições mínimas para o arranque do ano letivo de centenas de crianças deslocadas devido ao conflito armado naquela região do país.
A oferta, realizada em colaboração com a Fundação AJC, incluiu centenas de cadernos, esferográficas, lápis de carvão, caixas de lápis de cor, borrachas, estojos, colas, marcadores, entre outros itens escolares essenciais, destinados aos cerca de 870 alunos, da 1.ª à 6.ª classe, que frequentam a escola.
O material foi entregue pela presidente da Comissão Administrativa Provisória da EPM-CELP, Luísa Antunes, à presidente da Fundação Alberto Joaquim Chipande, Hortência Chipande, aos membros da instituição e aos dois professores da EP Ngalane, que se encontram em Maputo para formação em literacia em escrita criativa.
Na ocasião, Luísa Antunes sublinhou que a iniciativa se insere na própria génese da instituição. “Fomos constituídos ao abrigo de um acordo de cooperação e temos cooperado em vários níveis: na formação de professores, de técnicos bibliotecários, no equipamento de bibliotecas, na criação de maletas de leitura. E, sempre que possível, ajudamos também as escolas e associações que nos procuram, com materiais escolares que possam minimizar as dificuldades que algumas comunidades enfrentam no acesso à escola e à escolarização dos alunos moçambicanos”, explicou.
Referindo-se especificamente às crianças deslocadas pela instabilidade armada em Cabo Delgado, Luísa Antunes considerou que a solidariedade se torna ainda mais urgente.
“Se já numa situação normal é difícil percebermos como é que crianças não têm acesso à escola ou condições para a frequentar, ali essa realidade é agravada pela instabilidade social que provoca a deslocação de muitas famílias. Nessas circunstâncias, ainda mais se justifica o nosso apoio”, frisou.
A doação resulta da mobilização solidária dos alunos do Pré-Escolar e do 2.º Ciclo do ensino básico da EPM-CELP, que se juntaram à iniciativa com o objetivo de apoiar crianças que vivem em situação de elevada vulnerabilidade social.

Uma escola que acolhe crianças deslocadas
A Escola Primária de Ngalane acolhe maioritariamente crianças oriundas de famílias deslocadas pela instabilidade e pelos ataques armados registados em Cabo Delgado nos últimos anos. Muitas delas perderam os seus bens, as suas casas e, em alguns casos, familiares próximos.
Segundo a presidente da Fundação AJC, a criação da escola surgiu precisamente como resposta a essa realidade. “Depois da insurgência, vimos aquelas pessoas deslocadas, aglomeradas num único espaço, sem condições. Percebemos que, além da assistência imediata, era fundamental garantir educação e saúde”, explicou Hortência Chipande.
A responsável acrescentou que a Fundação, em parceria com outras entidades, avançou para a construção de uma escola e de um centro de saúde, como forma de devolver dignidade às comunidades afetadas. “Há crianças que perderam o pai, a mãe, e não têm qualquer meio. Por isso começámos a fazer pedidos de apoio, para que outras pessoas pudessem ajudar. Nós somos apenas um meio para concretizar esse desejo de ajudar o próximo”, sublinhou.
De tendas improvisadas a um espaço de aprendizagem
A Escola Primária de Ngalane encontra-se em funcionamento há cerca de três anos. Inicialmente, as aulas decorriam em tendas improvisadas, vulneráveis às chuvas e sem condições adequadas. “Eles começaram a estudar em tendas. Quando chovia, tornava-se impossível. Mais tarde conseguimos colocar carteiras e organizar o espaço. Desde então, a escola tem vindo a funcionar normalmente”, explicou Hortência Chipande.
No terreno, o impacto da oferta da EPM-CELP será imediato. O professor da escola, Agostinho António Chicapa, afirma que a falta de material escolar é uma das principais dificuldades enfrentadas pelos alunos. “As crianças chegam muitas vezes sem caderno, sem lápis, sem uniforme. Vivem em cabanas, em condições muito difíceis”, relatou.
Segundo o docente, apesar das dificuldades sociais e alimentares, os alunos demonstram grande vontade de aprender. “Mesmo sem refeição adequada, fazem esforço para vir à escola. Eles já carregam muitas dificuldades”, afirmou, acrescentando que “o apoio agora recebido representa uma garantia concreta para o arranque das aulas”.
No final do encontro, a Fundação Alberto Joaquim Chipande ofereceu à EPM-CELP as obras, “Como Eu Vivo a Minha História”, da autoria do General de Exército Alberto Joaquim Chipande, e “Lipondo – Terapia Surda”, de Dora Chipande, para o acervo da Biblioteca Escolar José Craveirinha, reforçando o intercâmbio cultural e educativo entre as instituições.
