No Dia Mundial da Língua Portuguesa, em Maputo, a língua fez-se ouvir antes de ser celebrada. Entre conversas soltas e sotaques cruzados, a cerimónia na Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) revelou o português como prática viva – múltipla, em movimento – antes de o fixar em discurso, reflexão e literatura.
É 5 de maio e, no pátio, antes do início da cerimónia, a língua refulge em diferentes matizes, português europeu, são-tomense e expressões moçambicanas, ecoam, fundem-se e aproximam. Estudantes conversam em voz baixa, funcionários organizam o espaço. A língua circula sem cerimónia, antes de subir ao palco. E é nesse intervalo que se torna visível aquilo que a data procura assinalar: uma língua em uso, que não se fixa, mas cresce e evolui em si mesma.
A cerimónia reúne representantes diplomáticos da CPLP, reitores, membros do Governo e convidados de vários sectores. Mais do que um encontro protocolar, trata-se de um gesto de aproximação entre geografias e experiências distintas, unidas por uma língua que se desdobra em variantes, tons e usos diversos.
A sessão integra as celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído pela UNESCO em 2019, e celebra uma língua falada por mais de 260 milhões de pessoas. Em Maputo, essa dimensão global cruza-se com a prática quotidiana: o português varia no ritmo, na pronúncia e no vocabulário. Um idioma comum que se realiza de formas diferentes.
O evento teve início com a entoação dos hinos de Moçambique e de Portugal, interpretados pelos alunos do 1.º Ciclo, seguindo-se a leitura de excertos de diversos livros publicados pela EPM-CELP, por alunos do ensino secundário.
“Uma língua que nos une”
No plano institucional, a cerimónia centrou-se nas intervenções de representantes diplomáticos, académicos e governamentais, entre os quais a presidente da Comissão Administrativa Provisória da Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa, Luísa Antunes; a inspetora-geral da Inspeção-Geral da Educação e Ciência de Portugal, Ariana Cosme; o embaixador de Portugal em Maputo, Jorge Monteiro; e a ministra da Educação e Cultura de Moçambique, Samaria dos Anjos Tovela.
Para Luísa Antunes, o Dia Mundial da Língua Portuguesa surge não só como efeméride, mas como pretexto para pensar a escala e a natureza de uma língua que atravessa continentes. Falada por milhões, mas longe de ser homogénea, a língua portuguesa é apresentada como espaço de encontro entre culturas e percursos históricos distintos.
No contexto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, essa dimensão torna-se mais evidente. O português afirma-se como elo comum entre realidades diversas, sem anular as especificidades de cada território. Em Moçambique, em particular, o seu papel como língua oficial e de ensino convive com uma pluralidade de línguas nacionais, compondo um cenário linguístico marcado pela sobreposição e pelo contacto.
E é nesse ponto, segundo disse, que a Escola Portuguesa de Moçambique se integra. Mais do que espaço de ensino e transmissão formal, a instituição surge como lugar de circulação da língua, onde diferentes referências culturais se encontram e se confrontam, e onde o português se adapta ao uso concreto de quem o fala.
A diversidade – fonética, lexical, cultural – não surge como fratura, mas como condição de existência da própria língua. As variantes faladas em Portugal, Brasil, Angola ou Moçambique não a fragmentam; expõem-na como um sistema em transformação contínua. E no limite, a ideia que fica é de que este “português” se mantém como língua comum não por ser uniforme, mas precisamente por acomodar diferenças.
“É a língua que nos permite encontrarmo-nos a nós próprios”
Ariana Cosme, na sua intervenção, propôs um olhar sobre a língua portuguesa menos institucional e mais fundacional, ou seja, não
apenas como instrumento de comunicação, mas como condição para a construção do do Homem e da sociedade. Na intervenção subordinada ao tema “O Mar que une os Povos tendo a Língua Portuguesa como um Bem Comum”, a inspetora-geral destacou o papel da linguagem no processo de formação individual e coletiva. “A língua ajuda-nos a encontrar os outros, mas também a encontrar-nos a nós próprios”.
Partindo dessa ideia, Cosme sublinhou que o ser humano não se constrói isoladamente, mas em relação. “Nós não nascemos pessoas; tornamo-nos pessoas na relação com os outros”, disse, apontando a linguagem como um dos principais mediadores desse processo. A frase é dita lentamente, seguida de uma breve pausa no auditório. Ariana Cosme fala da linguagem não apenas como ferramenta de comunicação, mas como condição de construção do humano.
A passagem da oralidade à escrita surgiu, neste contexto, como momento determinante. É através da língua escrita, referiu, que o conhecimento – técnico, científico e cultural – se transmite entre gerações, consolidando-se como memória coletiva. A intervenção recupera ainda a ideia de que o diálogo é condição essencial da existência social. “O ser humano faz-se no diálogo com os outros”, assegurou, acrescentando que a língua permite precisamente essa quebra do isolamento, abrindo espaço ao encontro e à ação.
A leitura e a literatura ocupam, neste quadro, um lugar central. Citando autores e experiências de leitura, Ariana Cosme defendeu que o contacto com os textos “nos torna mais críticos, mais inconformados”, contribuindo para a formação de sujeitos capazes de questionar e escolher os seus próprios caminhos.
A língua não serve apenas para descrever o mundo, mas para o pensar. “Nós pensamos pelas palavras”, afirma, sublinhando que é através delas que se estruturam ideias, emoções e formas de compreensão da realidade.
Essa relação entre linguagem e pensamento estende-se também à dimensão individual. A língua permite não só compreender o mundo exterior, mas também aceder à experiência interior. “É a língua que nos permite encontrarmo-nos a nós próprios”.
Num registo mais próximo da criação, a inspetora-geral destacou ainda o carácter dinâmico das línguas. Longe de serem sistemas fechados, estão em permanente transformação. Cada língua inventa palavras novas, afirma, apontando para a diversidade de usos do português em diferentes geografias – de Moçambique a Timor, passando por Portugal e outros contextos da lusofonia.
Para o embaixador de Portugal em Maputo, Jorge Monteiro, a celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa inscreve-se numa trajetória que antecede o reconhecimento pela UNESCO, lembrando que a data já havia sido instituída, em 2009, pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
No discurso, destacou o crescimento e a projeção internacional do português, sublinhando o seu estatuto de língua global. “É hoje uma língua de comunicação, de produção científica e cultural para mais de 260 milhões de pessoas, espalhadas pelos cinco continentes”.
O diplomata apontou ainda para a presença do português em sistemas de ensino e organizações internacionais, bem como para a sua expansão em contextos onde a procura tem vindo a crescer, como os Estados Unidos, o Senegal ou a China. “Estamos perante uma língua de futuro”, disse, associando-a não apenas à circulação cultural, mas também ao desenvolvimento económico.
Para ele, o português funciona como “instrumento facilitador de investimento, de comércio e de parcerias estratégicas”, sobretudo em geografias com elevado potencial de crescimento.
Sem perder a dimensão simbólica, o embaixador sublinhou também o papel da língua enquanto espaço de criação e identidade. Da literatura à música, passando pela produção académica, “é um veículo de projeção internacional das culturas dos países lusófonos”.
No contexto da Escola Portuguesa de Moçambique, destacou o ambiente multicultural como expressão concreta dessa diversidade. A convivência de alunos de várias nacionalidades traduz-se num espaço onde “a língua portuguesa se afirma como ponto de encontro entre culturas, instrumento de conhecimento e veículo de cidadania”, disse, concluindo que “cuidar da língua portuguesa é cuidar de uma herança comum, mas é sobretudo construir o vosso futuro”.
A língua como unidade e pertença
Na intervenção da ministra da Educação e Cultura de Moçambique, Samaria dos Anjos Tovela, a língua portuguesa surge ligada à ideia de unidade nacional e de memória coletiva. Partindo da experiência de uma geração
formada no período pós-independência, a ministra recordou que o português foi assumido como língua de instrução e elemento agregador num país marcado pela diversidade linguística. “Era uma questão de unidade nacional”, afirmou, sublinhando o lugar particular que a língua ocupa no contexto moçambicano.
Sem ignorar a coexistência com as línguas nacionais, Samaria Tovela destacou a necessidade de preservar esse património plural, reconhecendo que muitas das novas gerações já não dominam os idiomas locais. A relação entre o português e as restantes línguas faladas no país aparece, assim, menos como oposição do que como convivência e enriquecimento mútuo.
A ministra defendeu ainda um maior contacto dos estudantes com a realidade moçambicana, incluindo os que frequentam escolas de currículo estrangeiro. Nesse sentido, apontou a intenção de reforçar a presença de conteúdos ligados à História, Geografia e cultura do país, de modo a aproximar os alunos do contexto em que vivem. “Temos muitos alunos que estudam em Moçambique, mas que não conhecem o nosso país”, observou.
A literatura infantil e a promoção da leitura ocuparam igualmente parte central da intervenção. Referindo-se ao lançamento de “O Peixe Grande”, Samaria Tovela destacou a importância de estimular hábitos de leitura desde os primeiros anos de escolaridade, associando esse processo ao programa de aprendizagem na idade certa, centrado na leitura, escrita e aritmética. Nesse contexto, admitiu a possibilidade de a obra integrar futuramente circuitos complementares de leitura nas escolas primárias.
E, mais uma vez, o discurso regressa à ideia que atravessa toda a efeméride: a língua portuguesa como espaço comum de conhecimento, formação e cidadania. Mais do que instrumento administrativo ou académico, surge como língua de acesso ao saber e de construção coletiva de pertença.

O livro e o centro da palavra
O momento dedicado à literatura deslocou o eixo da cerimónia. O programa, até então estruturado em intervenções institucionais, abriu espaço a uma apresentação que rompeu com o registo protocolar e introduziu uma dimensão mais narrativa e interpretativa do encontro. O lançamento de “O Peixe Grande”, de Leo Cote, estava inicialmente previsto para ser apresentado pela professora e investigadora Sara Jona, contudo, dada a sua indisponibilidade de última hora, a sua intervenção foi lida pela professora Olga Pires, que assumiu a apresentação em sua substituição, numa mesa que contou ainda com a presença do ilustrador, Luís Cardoso.
Para Sara Jona, na leitura feita por Olga Pires, `O Peixe Grande´ “é um livro que nos convida a manter os nossos sentidos despertos. Não fala, efetivamente, de um peixe, mas este é a metáfora de um mamífero, cuja espécie nos é dada a conhecer quase no final da narrativa; ou seja, temos de ler o livro para saber que tipo de animal se trata, já que esta é uma história de suspense”, refere.
A investigadora sublinhou que “é assim que se escrevem os bons livros de ficção infantojuvenil, nos quais se utiliza a criatividade para fazer sonhar ou estimular a imaginação. O uso do adjetivo ‘grande’ é uma técnica que ativa a curiosidade, levando o leitor ao desejo de folhear apressadamente o livro para ver o tamanho do peixe”, acrescentou.
Na narrativa, explicou, o peixe tem, para o menino que conta esta história, o tamanho de um boi, portanto, ‘um peixe do tamanho de um boi’. A leitura destaca ainda a forma como o texto descreve o mar: “Aqui o mar respira, normalmente, num ritmo constante e vagaroso. Às vezes, só às vezes, ouve-se um rugido de mar alto ou de tormenta. Por isso, ninguém saberia explicar por que razão, naquele momento, o mar chegava à praia com um respirar asmático, cansado e triste”.
O livro é descrito como tendo uma estrutura próxima do policial: “Foi escrito como se de um verdadeiro policial se tratasse”, disse, para quem as ilustrações de Samuel Djive e Luís Cardoso são complementares da narrativa, “acompanhando a história, onde no início se ilustra o ‘peixe grande’ e no final se faz a revelação tão desejada”.
No plano interpretativo, a intervenção associou a obra à ideia de questionamento: “Com esta história, Leo Cote vem-nos lembrar a importância de questionar sempre que nos encontramos diante do desconhecido, do diferente, ou do que gera diferentes pontos de vista”. A intervenção encerrou com uma nota sobre língua e identidade, destacando a presença de vocábulos de uso moçambicano, como “matabicho”, e a sua circulação no interior do português.
É a partir dessa leitura, que coloca o livro no território da metáfora, do suspense e da formação do olhar, que a palavra passa para quem o fez. E aí, o registo muda: sai-se da interpretação para o processo, do texto lido para o texto vivido.

O ilustrador, Luís Cardoso, começou por situar o livro no seu percurso. Ao longo de mais de uma década de colaboração com a Escola Portuguesa de Moçambique, o desenho tem sido o seu lugar de trabalho. Mas aqui, explicou, o desafio foi outro. As imagens não nasceram para o livro: partiram de obras pré-existentes de Samuel Djive, que serviram de base a um trabalho de diálogo visual. “Usei as obras como suporte para ir fazendo apontamentos ilustrativos ao longo do texto”, disse, descrevendo uma relação que não é de subordinação à narrativa, mas de convivência com ela.
Luís Cardoso fala do desenho como quem regressa a um gesto antigo. Enquanto descreve o processo de ilustração, faz movimentos curtos com as mãos, como se ainda desenhasse sobre a mesa. Há, nesse processo, uma escolha que é também uma posição: o regresso ao traço. Num contexto dominado pelo digital, Luís Cardoso sublinhou a importância do desenho como gesto primeiro.
“O recurso principal foi o traço. E só depois a fotografia, a digitalização”, afirmou. Mais do que técnica, trata-se de preservar uma forma de ver, uma linha que acompanha o texto sem o fixar, que sugere mais do que explica, e que mantém aberta a mesma ambiguidade que Sara Jona identificava na narrativa.
“A minha primeira língua é o português”
Se no desenho o processo parte da contenção e da escuta do texto, na escrita de Leo Cote o percurso faz-se por aproximações e desvios. O autor começou por assumir uma dificuldade: falar deste livro não é simples, talvez porque a sua origem não está num projeto linear, mas num confronto com os próprios limites da linguagem.
Leo Cote fala do livro com alguma hesitação, como se ainda procurasse a melhor forma de explicar a sua origem. Quando finalmente define o ponto de partida, recua à poesia. “Fundamentalmente sou um poeta”, disse, explicando que a passagem para a prosa, e, em particular, para a escrita infantojuvenil, nasce da necessidade de dizer de forma mais acessível aquilo que na poesia se torna “mais hermético”.
Essa passagem não implica simplificação, mas antes deslocamento. A prosa surgiu como espaço onde é possível “dizer muito
com pouco”, encontrar uma forma de comunicação que preserve a densidade sem perder o leitor. E esse leitor, no caso, são crianças – um território que o autor não romantiza. Pelo contrário, descreve-o como um espaço exigente, onde cada palavra precisa de encontrar o seu caminho. “A mesma coisa que digo a uma criança não serve para outra”, observou, sublinhando a necessidade de inventar estratégias diferentes para chegar ao mesmo sentido.
A escrita aparece, assim, como um exercício de mediação: entre referências literárias – que reconhece como “muito dramáticas, muito sérias”, como as de Fernando Pessoa – e a realidade concreta que o interpela diariamente; entre a experiência pessoal, incluindo a relação com o filho, e a construção de um imaginário capaz de acolher outros. O texto nasceu dessa montagem, de “retalhos” de leituras, de vivências, de perguntas sem resposta imediata.
Há ainda uma dimensão que atravessa todo o seu depoimento: a relação com a língua. No seu caso, o português não é apenas ferramenta, mas origem. “A minha primeira língua é o português”, disse, situando-se numa posição particular dentro do contexto moçambicano. E é a partir daí que pensa também as limitações e possibilidades do uso linguístico, lembrando que falar uma língua não significa necessariamente conhecê-la em profundidade. A literatura, sugeriu, é precisamente um dos lugares onde esse conhecimento se expande, onde palavras aparentemente simples abrem para diferenças culturais, para outras formas de ver e organizar o mundo.
No fim, o livro deixa de ser apenas objeto para se tornar passagem. Entre texto e imagem, entre autor e leitor, entre experiências que não coincidem, mas que se podem encontrar. Como na metáfora inicial, não é tanto sobre um peixe, mas sobre aquilo que só se revela a quem aceita ler até ao fim.
A cerimónia terminou com uma visita guiada à exposição “Proteger o Azul, Salvar as Cores”, patente no átrio da Escola e criada no âmbito das celebrações do Dia Mundial da Água, propondo uma reflexão sobre a preservação dos ecossistemas marinhos, seguida de um Porto de Honra.

