Quando as histórias ganham vida e emocionam quem as criou

No dia 7 de julho, a Escola Primária 4 de Outubro viveu um daqueles momentos que lembram por que razão as histórias continuam a fazer sentido. O arquiteto e ilustrador João Melo, autor das ilustrações do livro “Yagô e o Mumú”, visitou a escola e foi recebido da forma mais especial: com uma dramatização da obra preparada pelos alunos.

Em palco, as personagens saíram das páginas do livro para ganhar voz, movimento e emoção. A dedicação das crianças foi tanta que o ilustrador não conseguiu esconder o que sentia. O sorriso, o olhar atento e a emoção estampada no rosto revelavam o impacto de ver a sua criação renascer através da imaginação dos pequenos leitores.

Depois dos aplausos, o encontro continuou numa conversa descontraída, feita de perguntas, curiosidade e muitas descobertas. Os alunos ficaram a saber que a história nasceu de um passeio verdadeiro, que o "Yagô" se chama, na realidade, Tiago e que hoje já é um homem adulto. Descobriram também que João Melo passa os dias a desenhar projetos de arquitetura no computador, mas que as ilustrações do livro foram desenhadas à mão e posteriormente coloridas em formato digital. Apenas a capa seguiu outro caminho, tendo sido pintada com uma combinação de aguarelas e guache.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando João Melo pegou num giz e desenhou o Yagô no quadro da sala. Enquanto o fazia, explicou que gosta de criar braços exageradamente compridos e rostos imperfeitos porque acredita que o desenho também deve surpreender, provocar sorrisos e despertar a imaginação.

No final da visita, o ilustrador partilhou a emoção que viveu naquele dia.

"Foi muito especial visitar esta escola e ver o Yagô e o Mumú ganharem vida pelas mãos das crianças. A sala cheia, crianças a espreitar até pelas janelas, e para muitas delas esta foi a primeira vez que conheceram a história, o que tornou a experiência ainda mais interessante de observar: via-se a descoberta a acontecer ali, em tempo real, através do teatro. Ver um livro escrito pelo meu pai e ilustrado por mim ser apresentado desta forma, a ganhar novos leitores diante dos meus olhos, foi profundamente gratificante. Mais do que assistir a uma apresentação, foi perceber que aquele trabalho continua a encontrar quem o precise de conhecer e a cumprir o seu propósito.

Teve também um significado muito pessoal. O meu pai, já com a memória fragilizada, quase nem se lembrava de ter escrito esta história. Poder partilhar este momento com ele tornou tudo ainda mais emocionante. Num país onde tantos bons projetos acabam esquecidos numa gaveta, ver este livro a chegar a crianças que nunca o tinham lido e a fazer parte da vida de uma escola é, para mim, uma das maiores recompensas que podia receber."

A visita deixou uma marca na comunidade escolar e terminou com um novo desafio: alunos e professores foram convidados a escrever uma história original, criar as respetivas ilustrações e voltar a receber a equipa para celebrar o resultado desse trabalho coletivo.

Fica um agradecimento especial a João Melo pela disponibilidade, generosidade e inspiração que levou à Escola Primária 4 de Outubro e ao projeto Mabuko Ya Hina. Dias como este recordam que os livros só ficam verdadeiramente completos quando encontram leitores capazes de lhes dar uma nova vida.